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baú das alembranças

baú das alembranças

Saudosistas do passado


«De Carlos Esperança com a devida vénia.



Os saudosistas do passado e os adeptos do antigamente é que era bom não se lembram disto»



Já tem a barriguinha cheia, falam de peito feito.


 


Lembro-me de grupos de mulheres a regressarem das hortas, à tardinha, acompanhadas de crianças, que paravam para mijar antes de chegarem à aldeia. Alargavam as pernas e esvaziavam a bexiga gerando um rego de urina que a terra seca do caminho extinguia. A pressão na saia, com uma das mãos, enxugava a última pinga pendente. Era o fim de um ritual coletivo, antes de retomarem a marcha em direção a casa, para prepararem a ceia.


 


Os garotos usavam calções, com uma racha atrás que, sem cuecas, facilitava o alívio das necessidades fisiológicas. Nunca encontrei um cronista que, recordando os odores de então, divulgasse os hábitos aceites com a naturalidade com que, no séc. XVIII, na corte francesa, se instruíam os criados a não oferecer os penicos antes das refeições, para não as retardarem.


 


As aldeias não tinham saneamento, água canalizada, luz ou telefone, e percebe-se bem a inutilidade de outros móveis reservados à higiene, além da bacia ou lavatório, do jarro da água, penicos e, nas casas ricas, do bidé, com um suporte em ferro, e da banheira de zinco, encostada à parede, após os banhos, à espera de uso na semana seguinte.


 


A falta de casa de banho não constituía um problema. Havia sempre um curral e para lá das ruas e das casas, as instalações sanitárias eram o que a vista alcançava. O problema era a falta de papel, a ausência de folhas de árvore cuja dimensão poupasse os dedos, e a aspereza das pedras mais próximas.


 


Imagino a náusea da simples referência às condições de então, mas quem as viveu ainda recorda o cheiro das pessoas e a condescendência das pituitárias quando as próprias ruas eram cobertas com folhas de carvalho e de castanheiro, à espera da decomposição com a urina que escorria das cortes, para servirem de húmus nos terrenos pobres das aldeias do distrito da Guarda.


 


O banho, com as precárias condições, a distância da fonte e a necessidade de lenha para aquecer a água, era um hábito exótico que tornava inútil o conselho de um livro escolar, «deve-se tomar banho uma vez por semana», e supérfluo o incentivo da professora.


 


Sentadas na soleira das portas, nas tardes de Verão, as mães aliviavam a comichão dos filhos, ripando-lhes o cabelo e catando-lhes as lêndeas e os piolhos da cabeça, com o pente da caspa, onde os esmagavam com a unha do polegar. Nas casas, tantas vezes de terra batida, pulgas, percevejos e melgas eram os parasitas que conviviam com carraças, moscas, melgas e mosquitos, na biodiversidade que o habitat propiciava.


 


Se o banho era um hábito ignorado, os inseticidas eram totalmente desconhecidos. Até os escaravelhos, que devastavam a rama da batateira e impediam a produção de batatas, eram catados à mão e metidos num balde para servirem de banquete às galinhas.


 


Os homens, especialmente os fumadores, aliviavam o catarro disparando ruidosamente escarradelas, a longa distância, numa espécie de desporto com que procediam à higiene brônquica. Era uma liberdade e o direito consuetudinário dos meios rurais.


 


Na cidade da Guarda, as exigências legais comuns a todos os centros urbanos, proibição de andar descalço, mendigar ou vadiar, dispensavam a publicidade. Incumbia à PSP a prisão dos prevaricadores.


 


Quem se deslocava a pé, descalço, para poupar o calçado, calçava-se antes de entrar na cidade. Era o respeito que as aldeias deviam à cidade, onde, além dos constrangimentos sociais e das proibições legais exigidas, mas omissas, havia outra, afixada em lugares visíveis, nas repartições públicas: «É proibido cuspir no chão».



Nas aldeias havia mais liberdade. Aliás, ninguém cuspia no chão. Incumbia à gravidade depositar as secreções que os soalhos, ao contrário da terra, não absorviam.


 


Valia o desvelo do Governo que zelava para que não faltassem, nas repartições públicas, os escarradores. Havia-os dentro e fora do balcão, respetivamente para os funcionários e para o público.


 


Quem viveu esses tempos recorda-se da falta de pontaria dos utilizadores, que erravam o alvo. Hoje, perante tais secreções, um geólogo julgaria ver estalactites e estalagmites, que ignorados sais escureciam, e um médico certamente faria o diagnóstico diferencial, por mera observação, do tabagismo e da tuberculose.


 


Que tempos! E que raio de ideia a do cronista, a de trazer a escatologia para a mesa da escrita e servi-la aos leitores, como se fosse iguaria!



Jornal do Fundão, 23 de novembro de 2017

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