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baú das alembranças

baú das alembranças

Cronicas de Carlos Esperança

18/80 – Veredas do contrabando, trilhos da sobrevivência (Crónica de fim de semana)

Quando percorremos já parte substancial do caminho da vida que nos coube e falta o que ignoramos, assalta-nos a vontade de exumar da memória as pessoas que eram amigas dos nossos avós e foram nossas também.

Em meados do século passado, o contrabando era um crime que tinha uma força policial dedicada para lhe pôr cobro. Não me refiro à candonga de divisas, de favores e de honra, que essa não tinha quem a refreasse, e não faltava quem a protegesse.

Menciono o contrabando de azeite no dorso de machos e mulas que caminhavam lestos com dois odres, seguidos do dono. Ou de pães de trigo amassados ao torno – «trigo espanhol» –, comidos à mesa dos ricos e, em dias de festas canónicas, dos remediados, que chegavam de Espanha nas costas vergadas de aldeãs.

Vinham cortes de pana encomendados e cujo lucro se sumia nas cargas apreendidas, chocolates da Senhora das Candeias, galletas, alpercatas, caramelos e outros bens escassos, com que mulheres determinadas cruzavam a raia de Portugal até à casa do consumidor.

Ver na luta pela sobrevivência mulheres de corpo tão débil e coragem tão forte era um apelo à cumplicidade com as autoras do delito e à suspeita e animosidade para com a Guarda-fiscal. Como poderiam ser delinquentes a senhora Margarida e a sua cunhada Ana, que iam a pé da Malhada Sorda até Almedilla para satisfazerem as freguesas, e subsistiam com os escassos ganhos do arriscado viver? E que dizer da Ti Esperança e da Ti Maria Josefa, que iam da Miuzela do Côa, e de tantas outras, com o corpo alquebrado dos fardos e as alpergatas rotas pelas asperezas do caminho?

Também havia homens que andavam na candonga, vivendo os mesmos medos e angústias, sem lhes minguar o tempo para encherem de filhos as mulheres, próprias e alheias. Mas fui sempre mais apiedado do sacrifício e tormentos das mulheres, convicto de que seriam nelas mais sofridos os espinhos.

Faziam seis léguas, calcorreando os trilhos da sobrevivência, com o temor dos guardas que lhes tolhiam o passo e assaltavam as cargas. Iam em grupo e voltavam desgarradas dezenas de metros para que a infelicidade de umas as não atingisse a todas. Depois, lá estava a solidariedade das que escapavam a abonar as vítimas que teimavam no ramo a fazer pela vida.

Era assim, vergadas ao peso e ao medo, que viajavam a pé num raio de três ou quatro léguas que percorriam nos dois sentidos. Para irem mais longe, até à cidade da Guarda, onde eram mais endinheiradas as freguesas e substanciais as encomendas, iam as pobres contrabandistas no trama. Embarcavam no apeadeiro da Quinta da Ribeira dos Abutres, crismado como Aldeia de S. Sebastião depois de uma febre pia que percorreu o país. Ou na Freineda e no Noémi, após um sinal enviado do comboio de que não havia perigo, isto é, não iam guardas-fiscais a bordo.

Depois eram rápidas a repartir as cargas por passageiros conhecidos e a defendê-las de um eventual assalto policial que podia surgir mais adiante. Nem sempre venciam as contrabandistas, às vezes ganhavam os guardas surgidos noutro apeadeiro. Confiscavam a mercadoria e indagavam quem era o dono, perante uma carruagem de mudos. Se tudo corria bem, quando o comboio abrandava a marcha, a duas ou três centenas de metros da estação da Guarda, rolavam as cargas bem-acondicionadas para uns lameiros onde iriam depois procurá-las.

Era neste jogo do gato e do rato, um jogo de que dependia a sobrevivência das contrabandistas e dos guardas-fiscais, que circulavam as mercadorias e se respondia às urgências de uma economia de subsistência e à ineficácia dos circuitos comerciais.

Despachados os artigos e arrecadada a paga, esperava-as o caminho inverso, a passagem por casa, onde havia trabalhos domésticos em atraso. E, de novo, com um parco farnel que tragavam em andamento, lá voltavam aos trilhos bem conhecidos, labirintos que em noites de Lua Nova só as mais experientes atinavam. E o cuidado que era preciso ter para evitar tropeções nas pedras largadas na última passagem ou nas gestas atadas para que nelas esbarrassem os guardas. Quantas vezes, por mor disso, nelas se estatelavam as próprias.

Eram ásperos os trilhos do caminho, tanto quanto os da vida que lhes coube, a epopeia sem alternativa, e o destino que o instinto de sobrevivência e a geografia lhes marcaram. Ainda hoje sinto os beijos meigos dessas mulheres que me confiavam o segredo do esconderijo das cargas, detrás da lenha do palheiro dos meus avós, e me deixavam a colocar molhos de vides para melhor as dissimular, enquanto repunham as forças com meio trigo da Miuzela, uma posta de bacalhau frito e meio quartilho de vinho, antes de perscrutarem fardas nas redondezas, recuperarem as cargas e retomarem a marcha.

Jornal do Fundão - 19.09.2008

In Ponte Europa – Livro a editar por Âncora-editora. Lançamento: 19-11-2016, às 16H00 – (Pólo de S. Bartolomeu da União de Freguesias de Coimbra, Av. Fernão de Magalhães, em Coimbra, a 30 metros ao Hotel Oslo)

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