Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

baú das alembranças

baú das alembranças

Carlos Esperança

12/80 – Pelos caminhos-de-ferro e da vida – Crónica de fim-de-semana

O trama era o comboio diário que, vindo de Vilar Formoso, chegava à Guarda pouco depois das nove horas da manhã e regressava às cinco da tarde em sentido inverso. O nome ficara do inglês Tramway e era exclusivo do referido comboio, bem mais ronceiro e acessível que o correio, o rápido ou o Sud, parando em todos os apeadeiros.

No último dia de setembro e nos primeiros de outubro, a 3.ª classe regurgitava de gente e de mercadorias que se acondicionavam nos corredores, debaixo dos bancos, nos cacifos junto ao teto, nas plataformas de acesso às carruagens e entre os passageiros. Adolescentes de ambos os sexos e várias mulheres entre os trinta e os quarenta anos, envelhecidas por numerosos partos, lides do campo e privações, vigiavam as bagagens que ocupavam todos os espaços vagos, servindo os sacos de batatas, entre os bancos, de estribo aos passageiros.

Na estação da Guarda apeavam-se, reuniam os pertences e transportavam-nos até à paragem das camionetas. Detetados os passageiros sem bagagem, pediam-lhes os que tinham demasiada para assumirem como sua parte dela, a fim de poderem transportar na camioneta tão vasta carga sem pagamento extra. Recebiam a ajuda pedida e a piedosa mentira tinha a compreensão e cumplicidade do cobrador de bilhetes, que fingia ignorar tão simplória tramoia, não fosse ele também um homem do povo igualmente sacrificado por trabalhos e privações.

Os jovens partiam lestos, a pé, calcorreando a distância que separava a Estação da Sociedade de Transportes, na cidade, a fim de carregarem as bagagens até casa, quando chegassem. Se a camioneta se adiantasse, lá estariam à espera os volumes e quem os guardava e, às vezes, antecipavam-se eles à camioneta, que ia pelo Rio Diz, veículo vetusto e lento que se queixava do peso e da subida e resfolegava nas paragens. Poupavam os peões o bilhete, que custava 2$50 a cada passageiro.

Entre 1 e 7 de outubro não havia aulas. O primeiro dia servia para apresentar aos alunos Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Bispo, Governador Civil, Presidente da Câmara, Reitor, Comissário da Mocidade Portuguesa, excelentíssimos e doutores todos eles. O cerimonial servia para mostrar aos rústicos alunos o poder e a autoridade, o respeitinho era muito bonito, e ensinar a aplaudir quando qualquer deles tartamudeasse umas trivialidades.

Depois era uma semana de azáfama para celebrar os contratos da luz e da água e colocar os contadores, com os putos e as meninas já instalados e separados em quartos transformados em camaratas. A água era fria e o simples ato de lavar as mãos um sacrifício que se fazia com parcimónia, sendo o banho semanal um hábito de gente fina.
Entretanto os alunos deslocavam-se ao liceu a tomar nota da turma, dos horários, das disciplinas e dos livros que urgia comprar. E aprendiam que no rés-do-chão ficavam as meninas e no primeiro andar os rapazes.

Depois de se inteirarem dos livros que podiam usar dos irmãos mais velhos, e dos que podiam comprar em segunda mão, por metade do preço, no Pinto, junto ao cinema, lá iam às livrarias do Sr. Felisberto ou do Sr. Casimiro comprar os restantes e pedir os horários, impressos onde se anotavam os dias e as horas das aulas de cada disciplina, oferecidos pelos livreiros num gesto de simpatia e boas-vindas.

A maior parte hospedava-se em casas particulares, autênticas colmeias, onde a mesada era paga em géneros: pão, batata, azeite, toucinho, feijão e outras vitualhas, que variavam consoante a origem dos hóspedes e a colheita agrícola dos pais, com a propina de 100$00 mensais, a única contribuição fixa e sem discussão.

Alguns ficavam em casas de funcionários públicos que arredondavam magros salários com os hóspedes, mas outros tinham o arrimo de uma mulher que aos seus juntava os filhos alheios e a todos cuidava. Eram camponesas cujo instinto fez governantas para darem aos que velavam o futuro que não tiveram.

Foi assim que muitos alunos se iniciaram no ensino secundário. A abnegação das mulheres rurais, tantas vezes analfabetas, duramente arrancadas à horta, ao marido e ao habitat, contribuiu para a escolarização do país e para dar aos filhos um rumo que os afastou da pobreza, e para criar quadros que, a partir de 1960, começaram a mudar a face de Portugal, enquanto o imobilismo da ditadura mantinha o paradigma de nação rural, temente a Deus, pobrezinha, mas honrada.

Algumas dessas mulheres, heroínas anónimas, moiras de trabalho e abnegadas, ainda rumaram a Coimbra para apoiarem os filhos, os próprios e os alheios, que ousaram a Universidade e viraram doutores com calos nas mãos no início de cada ano letivo.

Da odisseia coletiva, do sacrifício silencioso, do desassombro destas mulheres da Beira nunca se fez o inventário das lágrimas, privações e afoiteza que ajudaram a mudar Portugal. Depois de cumprida a missão, regressavam às terras e à lavoura, ao mau feitio dos maridos e às lides da casa, às novenas e promessas pias, para que os filhos que criaram não perecessem na guerra que consumia jovens e destroçava pais num conflito obstinado que a ditadura manteve contra a história, o bom-senso e o direito dos povos à autodeterminação.

Já poucas restam dessas mulheres ignoradas. Estão por contar histórias de vida, retalhos da memória de um povo que parece envergonhar-se do que mais o nobilita, e esquecer as raízes que são pergaminhos da honra nos caminhos da vida.

Há, talvez, na amnésia coletiva, a ingratidão dos filhos e a vergonha de novos-ricos, que esqueceram a abnegação das mães e a solidão dos pais que ficavam a mourejar nos campos e se privaram das companheiras, numa dádiva cujo sacrifício se adivinha.

Jornal do Fundão em 27.09.2007

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Favoritos

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D