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baú das alembranças

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A História da minha vida militar

A História da minha vida Militar

A minha guerra.

 Passava por mim a grande velocidade o ano de 1967 e eu já com 20 anos no pêlo, fui obrigado pelo sistema politico de então a dar o nome para ser referendado e constar da lista dos gajos que estavam bons ou disponíveis para dar o coiro pelo  país, pela Pátria ou fosse lá pelo que raio fosse. Era preciso é que estivesse bom para matar ou morrer.

Neste caso era mais para dar o coiro para salvar o coiro de outros filhos da puta que viviam nas suas torres de oiro e nos seus castelos de diamantes.

Fosse como fosse, o que tem que ser tem muita força e como eu não tinha força nenhuma tive de gramar a pastiha e tive de ir dar o corpo ao manifesto.

Tendo dado o nome em 1967, fui chamado em 1968 par passar por uma inspecção como se faz aos cavalos e para me ver se tem dentes bons e patas sólidas e para me dizerem que estava bom tanto para matar como para morrer, mas que era muito melhor para morrer. Era magrinho e não muito alto, ou passava pelo intervalo das balas ou morria ao primeiro sopro de uma. Tanto fazia.

Mandaram-me para Aveiro onde me instalei no dia 22 de Outubro de 1968 num convento ou outra coisa qualquer e onde me iriam fazer permanecer oito semanas a correr para trás e para diante sem eu alguma vez saber onde é que iamos parar e a verdade é que nunca fui ter a lado nenhum.

Normalmente durante estas oito semanas eramos preparados, manipulados e manobrados psicológicamente para termos a ideia fixa de que o que estavamos a fazer era o melhor para o nosso país, para nós e para a  nossa família, e eramos constantemente injectados com retórica a favor da guerra, e que nós é que eramos os bons e os outros eram os maus.

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Não quero, não posso nem devo com esta pequena crónica  tentar escamotear o que foi a guerra pela libertação nas antigas Colónias nem quero deixar de lembrar o sofrimento que esta causou a centenas  de milhares de homens e mulheres deste país nem dos outros países nela envolvidos.

Tal como dizia, fiz a recruta preparação fisica, psiquica e intelectual durante oito semanas em Aveiro e estava preparado para no fim desta ser despachado para uma zona de combate com acontecia a mais de 90% dos meus camaradas.

Quis o destino, que é uma das poucas coisas em que ainda acredito, já que não tinha amigos ou conhecidos de alta patente no meio militar e nem no meio civil, que no fim da recruta me tivessem dado a especialidade de caixeiro.

Talvez porque constava no meu curriculum que tinha sido marçano dos doze até aos dezoito anos, mas não tenho a certeza se teria sido o motivo.

E assim terminada a recruta sou enviado para  escola prática da Administração Militar em Lisboa para frequentar o curso de caixeiro e consequentemente a escola de cabos que durou mais oito semanas, terminando no fim de Fevereiro de 1969.

Pensei para comigo.

Meu filho, desta já te safaste, não vais andar aos tiros e eventualmente não vais morrer mas também não vais matar ninguém na guerra. Um caixeiro serve normalment para estar cá atrás a enviar comida e para os outros e zelar para que esses outros tenham  minimo dos minimos.

Embora tivesse sido informado que o meu destino já estava traçado, ninguém sabia para onde iria ser enviado nem quando. Ficaria em stand by e colocado em Santa Margarida da Coutada, Tancos, a fazer serviço à linha. « Guarda á Polícia, guarda ao paiol, guarda à prisão, Piquete e segurança noturna» e assim foram passados mais três meses.

Estavamos em junho  e na altura que estava deslocado no meio do mato a fazer guarda à carreira de tiro, veio um sargento buscar-me num jeep para ir tratar  das minhas coisas, entregar o que havia para entregar e pôr-me a andar para casa, gozar férias porque tinha chegado a minha hora de embarque para África.

Fui par casa dos meus pais que como é lógico ficaram com o coração nas mãos e preparei-me para gozar os dez dias de férias de lei antes de embarcar.

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Não fiquei dez dias, fiquei mais, recebi um telegrama para me apresentar a 18 de julho no Quartel General de Adidos em Lisboa para levantar o equipamento e embarcar a 22 no paquete Principe Perfeito com destino à Zona Militar de Moçambique, Lourenço Marques.

Não embarquei no paquete Principe Perfeito a 22 mas embarquei no Paquete Infante D. Henrique no dia 3 de Agosto de 1969.

Vigem turistica maravilhosa a bordo de um paquete de cruzeiro com escala na Madeira, Lobito, Luanda, Cape Town, Port Elizabeth e Lourenço Marques  com piscinas, cinemas, salão de jogo e de baile e sobretudo miúdas.

Destino: Manutenção Militar de Lourenço Marques destacamento do Bairro do Jardim Zoológico, a meia dúzia de quilómetros da cidade. 

Serviço: uma verdadeira trabalheira.

Sob as ordens de um tenente quase com idade para ser meu avô, organizar a segurança e vigilância dos armazéns onde eram depositadas os milhares de toneladas de géneros alimentícios que chegavam de Portugal e de outros países amigos nos barcos e que depois a partir daí seriam enviados para todas as unidades que se encontravam espalhadas por todo o território desde o Moncimboa ao Rovuma com é costume dizer-se.

E pronto.

Chegado aqui, fiquei por Lourenço Marques, hoje Maputo, cerca de vinte e seis meses.

Vinte e seis meses de doce remanso e dolce far niente mas que me exigia estar atento à segurança e ter às minhas ordens doze homens para fazer essa mesma segurança.

Não havia serviço de escala nem tal era necesário.

Eramos  doze soldados e dois cabos que devidiamos as guardas a nosso bel prazer e se um precisava de ir à cidade ou queria laurear a pevide o outro ficava a substituí-lo.

Assim fiquei pela cidade e como tinha muito tempo disponível aproveitei para me matricular numa escola e fazer o 1º e 2º ciclo do liceu que agora equivale ao nono ano. 

Os dois anos e dois meses na cidade passaram-se da melhor maneira possível, com a calma possvel e com o que permitiam os novecentos e trinta escudos mensais do ordenado de 1º cabo.

Lourenço Marques, era já nessa época uma cidade bastante cosmopolita e muito bem arquitectada. 

Pelos salões da cidade passávamos as noites do sábado nas soirés e a tardes de domingo nas matinés dançantes.

Não havia espaço  para corridas de grande fôlego porque para além de sermos mais conhecidos que Jesus Cristo, toda a gente sabia que eramos militares e o respeitinho é muito bonito, o dinheiro também era pouco embora esse não fosse problema porque nos salões pagava-se uma entrada simbólica,  mas eramos constantemente coagidos a participar em sorteios ou leilões para angariação de fundos. 

Ruas e avenidas todas em linha recta, largas, paralelas e perpendiculares, onda na parte mais antiga pululavam esplanadas, cabarés, bares e clubes nocturnos sempre à pinha com turistas brancos sul- africanos e rodesianos que iam à procura do divertimento que lhes era proibido na sua terra por causa da lei do Apartheid.

Por vezes, sabendo eles também que eramos militares, convidavam-nos para as suas mesas e saíamos de lá já bem aviados com a ceveja e o wisky a rodarem.

Como quase sempre andavamos fardados, e mesmo que  não andassemos não passavamos despercebidos a Polícia Militar não nos passava cartão e muitas vezes fechava os olhos e também porque o nosso possicionamento na manutenção nos colocava em situação privilégiada, já que quase todos os dias as patrulhas da PM em serviço, passavam por volta das três da manhã pela manutenção abriamos o portão para esconder o Rover e tinham sempre uma lata de conserva , uma salada, um pão do tipo saloio e um copo de vinho para aguentar a ronda até de manhã e como se costuma dizer, uma mão lava a outra e as duas lavam a cara.

Houve ainda tempo para dar alguns passeios e fazer algumas saídas ao exterior, como foi uma sardinhada assada no carvão na magnifica praia do Bilene, uns passeios sem grande interesse a Ressano Garcia, posto fonteiriço com a África do Sul, à Manhiça ou à Matola, pequenas cidades situadas a pouco mais de uma hora e Lourenço Marques.

Ou um passeio de fim de semana ao National Park Kruger na África do Sul.

Poder-se-há dizer que se não disparei um tiro não faço a minima ideia do que se passava nas frentes de combate, mas faço.

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O comandante da Manutenção onde eu me encontrava tinha um filho militar no QG Quartel General, prestes a terminar o serviço e então para o filho ser demobilizado fez um pacto com o comandate do QG e eu fui substituir o menino.

Lembra-se Arrobas da Silva?

Passei assim mais de três meses na Secretaria do QG a despachar correspondência, a receber correio, ou a dar informações sobre o paradeiro da malta que andava lá para cima e que se esquecia de avisar os pais que como é lógico andavam com o coração partido quando não tinham noticias dos filhos.

Eu ía aos ficheiros saber onde estavam colocados, contactava os comandantes via rádio  e enviava uma contrafé a obrigá-los a entrarem em contacto com a família, sob pena de castigo.

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Também tinha acesso a correspondência confidencial entre comandos e sabia dos encontros imidiatos com o inimigo e das baixas tanto de um lado como do outro assim como do material apreendido ou perdido.

Tinha também como tarefa, servir de escrivão aos advogados militares na elaboração de processos.

Cabrões entenderam que eu tinha uma caligrafia bonita e lixaram-me a vida.

Regrsso e desmobilização a 23 de Otubro de 1971 no navio Pátria, já com muitp menos qualidade e com um encontro com uma forte tempestade maritima ao passar o Cabo da Boa Esperança.

Foi duro. Foram quase dois dias a levar porrada com ondas de mais de dez metros e que nos faziam andar em bolandas no convés ou no salão do barco.

Cheguei a Lisboa no dia 20 de outubro de 1971 e fiquei hospedado uma noite no Quartel Geral de Adidos na Ajuda e disputar com os percevejos um espaçozinho para dormirmos se interferir uns com os outros , mas eles venceram pelo número e não me deixaram pregar olho.

Logo pela manhã e após ter tomado um pequeno almoço ligeirinho por causa da dieta, entreguei tudo o que me tinha sobrado de dois anos em África e embarquei para  a minha aldeia sem avisar ninguém da minha chegada.

Como tinha saído de Maputo com bastante calor nem me lembrei de quecá já era outono e já tinha começado o frio.

Cheguei à aldeia cerca das dez da noite com uma camisinha casca de ovo e a tremer de frio.  

Não tinha à minha espera a fanfarra mas não me posso admirar porque nã avisei. 

Rapidamente a minha mãe, o meu pai e os meus irmão mais novos se abraçaram a mim a chorar de alegria por me ver chegar são e salvo mas ao mesmo tempo de uma enorme tristeza porque havia pouco mais de dois meses que tinha morrido de doença prolongada o meu irmão  mais novo que eu e que ia fazer 21 anos daí por um mês.

Foram momentos de grande consternação que se viveram naquele momento mas passados alguns minutos começaram a chegar vizinhos e amigos para me darem as boas vindas.

Estava também o meu irmão mais velho que nesta altura já se encontrava emigrado em França mas que veio à terra var estar uns dias com a afamilia e prestar algum apoio. 

  

 

 

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