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baú das alembranças

baú das alembranças

Carlos esperança

7 – Um banho duplamente suspeito – Crónica de fim de semana

O Costinha frequentava o último ano de Direito e o Café Nova York, em Lisboa, quando as desavenças com o pai, emigrante em França, interromperam as relações e a mesada. Chamávamos-lhe Costinha para o distinguir do Sr. Costa, muito mais velho e robusto, que também frequentava o Café e mantinha relações com o grupo onde o primeiro se integrava.

Se a memória não me falha, foi em 1970 que as refeições na cantina da Cidade Universitária ficaram comprometidas e a espada de Dâmocles pendente sobre a cabeça do Costinha, inquilino de um quarto arrendado e em risco de o perder por falta de meios de pagamento.

Hoje andará a judiciar pelo Supremo ou em alguma das Relações, bem na vida com o pecúlio de magistrado em fim de carreira; mas foi difícil aquele ano e os tempos que se seguiram, até ao primeiro ordenado de agente do Ministério Público.

Era de excelentes contas e a nota de vinte escudos pedida de empréstimo a um amigo era devolvida na data prometida com a dignidade pessoal que o impedia de aceitar o perdão da dívida. Os amigos não adivinhavam as dificuldades da sobrevivência com tamanha lisura de contas.

Soubemos que teve vários empregos precários para assegurar a subsistência, mas apenas de um deles soubemos as circunstâncias porque o Cândido, amigo comum e advogado recente, tinha uma pequena avença na empresa que colocou o Costinha e logo o despediu, tão breve como o admitira. Foram os patrões que lhe contaram a história do despedimento de um trabalhador e das suas características, sem que o jovem advogado denunciasse a amizade e o convívio com a vítima.

O Costinha, na sequência da resposta a um anúncio, começou a trabalhar no armazém de uma empresa de shortcakes, na margem esquerda do Tejo. Era uma unidade de média dimensão onde o lombo dos trabalhadores adiava a entrada de modernas empilhadoras.

O finalista de Direito tinha dado como habilitações a 4.ª classe e atirou-se ao trabalho sem temer a concorrência de costados mais afeitos ao peso, ao pó e ao ritmo.

Não teve tempo nem jeito para fazer amigos. Logo no primeiro dia foi olhado com suspeição por ter pronunciado «xortqueiques» referindo-se ao que sempre fora designado por «xortcáques». Olhado de soslaio, apurada a ida de Lisboa, prontamente acentuou a desconfiança e atraiu a antipatia dos colegas da outra margem, enquanto se ia adaptando às caixas. Mas foi no fim da jornada que uma imprudência maior pareceu confirmar as piores suspeitas dos colegas. O Costinha arrancou para o duche antes de abandonar o local de trabalho e usou um dos chuveiros que a entidade patronal tinha instalado, por imposição legal, mas que os hábitos dos colegas tornavam supérfluos.
No dia seguinte, o segundo no emprego, voltou a alombar caixas para as viaturas estacionadas, à espera. Pouco tempo depois alguém o interpelou para lhe comunicar que «o gerente chama o Sr. Costa ao gabinete».

Mandou-o sentar e, de chofre, disse-lhe: o senhor tem mais do que a 4.ª classe, e ele anuiu; tem o 2.º ano do liceu, e ele confirmou; e o 5.º, e o Costa acenou que sim. Prosseguindo, em breve o gerente confirmou que o novo operário era estudante de Direito, um curso que gozava de particular prestígio e era um sustentáculo do regime. Tirou as suas conclusões, chamou uma empregada, mandou que lhe processassem dois dias de trabalho e anunciou-lhe o despedimento.

Enquanto não chegou o pagamento, talvez por respeito ao curso de Direito, sempre lhe foi dizendo que os trabalhadores estavam convencidos de que o novo colega era da PIDE e ele não gostaria que lhe caíssem caixas na cabeça, além da desgraça era o prejuízo da mercadoria, mas, cá para mim – disse o gerente –, o senhor é do Partido Comunista e vem fazer a subversão.

Não queremos cá gente dessa, passe bem, enquanto lhe indicava a porta de saída, sem aperto de mão, que a um comunista não se aperta a mão, só o pescoço.

A funcionária da tesouraria já o aguardava, para lhe entregar uma nota de cem e outra de vinte escudos, referentes a dois dias de trabalho.

Jornal do Fundão em 17.05.2007

In Ponte Europa – Livro em preparação para editar em 2016

Carlos Esperança

6 – A inaudita história do excursionista distraído - Crónica de fim de semana

O grupo, com mais de meia centena de casais, distinguia-se de uma companhia de circo pelo carácter facultativo e improvisado dos números a exibir. Era uma viagem de recreio proporcionada pela empresa aos empregados e aberta a acompanhantes.

A véspera fora divertida. Durante a tarde, o Pimentel, excelente criatura e jogador inveterado, não resistiu à aposta com que foi desafiado para recolher algumas moedas no lago junto ao hotel. Foi vê-lo a combinar o valor em cervejas e a despir-se de imediato ficando em cuecas, que simulavam bem um calção de banho. E zás, entrou no lago e recolhia-as quando turistas americanos, hospedados no mesmo hotel, lhe atiraram outras moedas julgando ser aquela a ocupação do velho profissional da indústria farmacêutica.

Antes do jantar de gala no casino do hotel – o Palace de Lucerna –, enquanto Von Karajan, velho nazi e excelso regente de orquestra se afligia com o nosso ruído e a demora do táxi que o levaria à sua orquestra, íamos apinhando o átrio e apreciando os trajes de cerimónia que o jantar no Palace exigia.

O Hortênsio falava alto, por hábito, mas perdeu o pio quando o Júlio saiu do elevador com um fato igual ao seu, ambos da fábrica de Coimbra, que vendia ao público, onde o preço e a coincidência de gostos os levou em ocasiões diferentes. Sentiram-se uniformizados e passaram o jantar amuados, com as respetivas mulheres coradas, aumentando a boa disposição. Aos outros, claro.

Mas foi na manhã seguinte que aconteceu a mais hílare situação dessa viagem à Suíça, protagonizada pelo Sousa Dias. O Sousa Dias era alferes quando uma bala simulada lhe cegou um olho, o que pode suceder e a ele aconteceu. Foi reformado das Forças Armadas, ao serviço de quem sofrera o acidente, com cento e poucos escudos mensais.

Valeu-lhe a multinacional farmacêutica onde auferia um vencimento digno que, depois do 25 de Abril, passou a acumular com o de major, patente onde pouco se demorou para acompanhar na promoção ao posto seguinte os oficiais do mesmo curso da Academia Militar.

O Sousa Dias era um poço de boa disposição e de excelente humor que repartia com amigos e desconhecidos.

Na véspera da saída de Lucerna e da viagem ao Monte Títlis, onde são perpétuas as neves e intenso o frio, a guia da agência de viagens avisara que a partida seria às seis horas e que as malas teriam de ser colocadas nos corredores do hotel às cinco e meia, a fim de os bagageiros as carregarem para os autocarros.

O pequeno-almoço, dada a hora matinal, era servido no quarto, onde, para além dos viajantes agasalhados para temperaturas negativas que os aguardavam na montanha, apenas ficaria a bagagem de mão.

À hora marcada as malas estavam nos porões dos autocarros e os passageiros nos respetivos lugares. Enquanto a guia contava os passageiros alguém gritou com ar aflito: falta o Sousa Dias!

Do casal nem sinais. A espera parecia infinda e o desassossego devolveu à rua os excursionistas.
Alguém notou que numa janela do hotel havia gestos aflitos a clamar. Era o Sousa Dias, só podia ser ele. Da rua faziam-lhe gestos para que viesse, da janela vinha o pedido para irem lá.

No impasse alguém se dispôs a regressar ao hotel e apurar o motivo do atraso.

Dois voluntários partiram a esclarecer o insólito atraso. A porta já estava aberta e, sentada na cama, a Maria de Lurdes escondia a cara sem se perceber se era choro, riso ou ambos que a prostravam. O Sousa Dias, cheio de camisolas, cachecol, casaco de lã, cuecas, meias grossas, tinha ao lado umas imponentes botas de montanha à espera de um tenente-coronel que entrasse nelas.

Com ar comprometido pediu aos emissários que lhe devolvessem as malas. Não sabia de qual precisava. Na pressa das arrumações tinha despachado as calças que jaziam no porão de um dos autocarros.

Jornal do Fundão em 10.05.2007

In Ponte Europa – Livro em preparação para editar em 2016

Ponte Europa de Carlos Esperança

5 – Salazarismo, amnésia e impudicícia – Crónica de fim de semana

Num país imaginário vivia um tirano num palácio, onde a governanta criava galinhas e se deslocava à praça para vender os ovos que sobravam do consumo doméstico.

Era um país triste, onde grassava a fome, a doença e o desespero, onde os homens se reuniam à segunda-feira na praça pública à espera de quem lhes alugasse os braços, do nascer ao pôr-do-sol.

O tirano tinha polícias que guardavam o Palácio e vigiavam o pensamento das pessoas; tinha os padres que, nas missas, punham o povo a rezar por ele e a pedir que lhe fosse concedida longa vida; tinha a Legião, a PIDE, a União nacional e a Mocidade para fazerem a sua apologia e vigiarem quem se lhe opusesse.

Era o País do medo, da miséria e, finalmente, da guerra que o tirano impunha de botas calçadas, com a manta sobre os joelhos e a comer carapauzinhos com feijão-frade.

Às vezes matavam-se uns adversários, que eram comunistas; outras, deportavam-se suspeitos que eram perigosos. Tinha juízes que eram pulhas e simulavam julgamentos nos Tribunais Plenários, tinha um cardeal que era um biltre, confundia o fascismo com a vontade divina, e milhões de vítimas que se conformavam com a tristeza, à espera de que a morte os libertasse do cárcere da vida.

Nesse país a mortalidade infantil era a maior da Europa, o analfabetismo ocupava o lugar cimeiro e, para morrer, eram os autóctones os primeiros a ser chamados.

O tirano morreu porque uma cadeira fez a tarefa que o povo falhou e o ciclo biológico cumpriu-se sem que lhe fosse feita justiça.

Foram morrendo os que o tirano não matou e outros, a quem nada disseram, nasceram. O tempo não se limita a eliminar pessoas, mata sobretudo a memória coletiva.

Assim, o país que resta divide-se entre os que viveram o pesadelo e os que vislumbram na náusea de um cadáver o mítico D. Sebastião na demência de impérios sonhados e paraísos inventados nas agruras do passado.

Vibrar

A Alemanha foi colonialista,
A França foi colonialista,
a Inglaterra foi colonialista,
A Holanda foi colonialista,
A Espanha foi colonialista,
A Itália foi colonialista,
Portugal foi colonialista,
Mas SÓ PORTUGAL consegue que os povos dos países por onde andou se manifestem em massa.
SOFRAM com as derrotas de Portugal como se fossem eles próprios os derrotados…
VIBREM com as vitórias de Portugal como se fossem eles próprios os vencedores
Gritam BEM ALTO;
- GANHÁMOS! GANHÁMOS! GANHÁMOS!

É por tudo isto, por ser-mos multiculturais, multirraciais, que esta “ Europa da treta “ não nos suporta…
************
Uma imagem vale mais que mil palavras.
- “Uma timorense a sofrer por Portugal em 2016, meio milénio após a primeira vela com a Cruz de Cristo ter alcançado o Mar de Banda. E há quem diga que O MUNDO PORTUGUÊS já lá vai...
- Não vêem a vela bem acesa nestes olhos?
- Dizem que é APENAS FUTEBOL. Não!
É muito mais do que isso!
- É RAIZ ANCESTRAL, É PASSADO VIVO, É ESPERANÇA NO FUTURO. É o assumir de uma IDENTIDADE incompreensivelmente bela e tensa.
É o desejo do BEM personificado na perfeição.”
Rainer Daehnhardt

Carlos Esperança A Ivone

4 – A Ivone (ou de como o ódio se transformou em amor) – Crónica de fim de semana

Em meados do século passado transbordava a fé nas aldeias de Portugal. O terço era, em maio, uma obrigação quotidiana, exortada pela Irmã Lúcia, a rogo da Senhora de Fátima. Agradecia-se a ausência de Portugal na guerra de 1939/45 e o Salazar que a Providência nos designou.

Ninguém suplicava já o regresso do rei, implorava-se a conversão da Rússia.

As festas religiosas tinham data certa e regozijo garantido com um bailarico profano que amofinava o padre e alvoroçava a juventude e o acordeonista. As procissões reuniam os paroquianos e as missas diárias tinham boa clientela apesar da faina agrícola. As mulheres arranjam sempre tempo para a devoção por mais tarefas que lhes caibam ou solicitações domésticas que não possam alijar. Até nas rezas substituem os maridos e os filhos.

Em maio, assinalado como mês de Maria, o terço não se resumia aos cinco mistérios e respetivos padres-nossos e ave-marias. Havia cantoria litúrgica para seduzir o divino e desimpedir o caminho do Céu, quando a hora chegasse, à alma dos executantes. Servia para isso a igreja e para evitar que a fé desse lugar ao sono domiciliário onde, à lareira, chegava no primeiro mistério.

Ao excesso de fé, à pressa das orações ou a ânsias mais profanas se deveu a velocidade com que raparigas da aldeia passavam pela igreja, sem parar a tempo, indo cair na vinha em frente. Não lhes escasseava compaixão pelo martírio do seu Deus a avaliar pelos gemidos.

A aldeia murmurava que fora enganada a Pedra, desonrada a Ivone e muitas já não estavam como deviam. E não sabiam as pessoas, da missa, metade.

Andavam muitas na boca do mundo que é como quem diz nas conversas de quem gosta de falar da vida alheia. Honravam-se as que casavam e perdiam-se as enjeitadas.

Intimidados com ameaças, alguns mancebos cuidaram de arranjar papéis para casarem, outros limitaram-se a ouvir gritar as coitanaxas ensinadas à porrada a conter o alvoroço e as hormonas, mas, para as que alcançaram, vinha tarde a pedagogia e o sermão.

O Zé Ferreira preferiu a PSP ao enlace, e abalou para Lisboa deixando prenha a Ivone. Acabou polícia e casado, deixando a Ivone que o pai prometera matar. Assustei-me ao escutar a ameaça e os nomes que lhe gritava para que a aldeia ouvisse. Adivinhei as lágrimas e a vergonha da cachopa, enganada e cheia, dentro das paredes da casa térrea.

Nem todas alcançaram, mas foram sete as que em fevereiro do ano seguinte deram à luz, unidas, umas, pelos santos laços do matrimónio e pela obrigação de continuarem a parir, ficando outras com a vergonha, o celibato e um único filho.

Quando nas férias grandes voltei à Miuzela do Coa roía-me a curiosidade e o medo de que a Ivone tivesse acabado os dias às mãos do pai, vítima da honra que soía lavar-se. Passei várias vezes à porta para saber se vivia. Não a via e temi o pior. O Zé Ferreira – disseram-me –, abalara para Lisboa.

No dia em que tive a certeza de que a Ivone vivia, rejubilei. Era uma criança sensível não me conformava com a morte embora soubesse que as famílias tinham, nesse tempo, códigos de honra que não permitiam que alguém fizesse pouco das filhas sem vingarem a afronta. Se a desgraçada tinha irmãos cabia a estes sangrar o machacaz, caso contrário a rapariga era posta na rua, levava uma sova ou as duas coisas.

A caminho da Fonte do Vale não vi a Ivone, mas, nos braços do avô, sentado na soleira da porta, uma criança de meses era embalada ternamente. Compreendi então que a vida vale mais do que os preconceitos e uma criança é capaz de transformar em amor o ódio que explode em momentos de exaltação e de vergonha.

Os americanos e a contrainformação.

Já agora e a talhe de foice eu pergunto. Quem foi que disse que as tropas de Staline exterminaram milhões de compariotas moncheviques? Os americanos e o mundo acreditou. Quem é que disse que Mao Tsé Tung mandou exterminar milhões de compatriotas chineses que não apoiaram o PCC? Os americanos e o mundo acreditou. Quem é que disse que o General Pol Pot exterminou milhões de vietnaminas que não apoiaram os Kmeres Vermelhos? Os americanos e o mundo acreditou. Quem é que foi lá ver se era verdade ou mentira? Ninguém. Todo o mundo sempre aceitou aquilo que os EEUU diziam como sendo a verdade pura. E a contrainformação continua sobre os países não alinhados.Os noticiários só noticiam aquilo que é mau. Ninguém noticía por exemplo que a Venezuela e Cuba foram os primeiros países a serem considerados pela UNICEF como países livres de analfabetismo.

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